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Entrevista com a psicóloga Laura Cavalcanti


Nesta entrevista, a profissional comenta sobre a atuação da Psicologia no processo de emagrecimento e das dificuldades emocionais que pessoas com sobrepeso ou obesidade enfrentam.



A questão da obesidade possui múltiplas causas, como o psicólogo pode ajudar uma pessoa com essa problemática?

Laura Cavalcanti - Diante das múltiplas causas da obesidade, a Psicologia tem como função inicial, legitimar essa multiplicidade. É importante, esclarecer de forma ampla, sobre as várias vertentes que envolvem esse tema. Quando o cliente chega ao consultório, normalmente ele traz experiências variadas de dietas frustradas, resistência ou dificuldades de manutenção do exercício físico, efeitos dramáticos pelo uso de medicamentos e complicações orgânicas. Ele se sente fracassado e, em geral, recebe reforço dessa impressão por parte da família e da sociedade. A Psicologia precisa amparar esse cliente, garantindo a credibilidade sobre a possibilidade de mudança. Para tal, é adequado focar, no tratamento psicológico, outro corpo que também se encontra obeso - o corpo emocional. É preciso cuidar desse corpo sutil e impregnante, que subjaz o corpo físico, aliviando seu peso e, com isso promovendo espaço interno para construir uma relação saudável com o corpo, com a comida e com a responsabilidade sobre as escolhas. Sendo assim, a Psicologia tem como tarefa, acompanhar a pessoa com essa problemática, na construção de sua trilha pessoal, promovendo a mudança de dentro para fora. Na medida em que o corpo emocional emite resposta, ela será refletida no corpo físico de forma mais equilibrada e com a leveza que lhe compete.

Qual é o principal motivo ou queixa que leva uma pessoa a procurar auxílio na psicologia para lidar com o seu peso?

LC - Os motivos que determinam a chegada do cliente ao consultório são variados, dentre eles; a distorção perceptiva do seu corpo, quando a pessoa ao contrário de sua realidade corporal, se sente obesa; a insatisfação como resultado da interferência social, onde se perde a referência pessoal tornando-se refém do julgamento alheio; a impotência diante do paradigma do fracasso, quando atravessa inúmeras tentativas fracassadas para mudar o tamanho do seu corpo. Esses motivos e tantos outros são reflexos do desequilíbrio entre o corpo físico e o corpo emocional, gerado por obstáculos relacionais na maior parte dos casos. Por isso é tão importante identificarmos os pesos que cada um carrega, além de seu próprio corpo e como essa dinâmica funciona nas relações biopsicosociais

O processo de emagrecimento pode gerar muita frustração, como isso é trabalhado no atendimento clínico?

LC - Frustração é vida! Desde criança, as experiências frustrantes fazem parte do nosso crescimento. Todos crescemos, isso é inerente à espécie, porém, amadurecer, é uma tarefa que demanda esforço e desenvolvimento de habilidades específicas. Amadurecer é aprender a lidar com as frustrações. No atendimento clínico, é importante conduzir o cliente, na construção de uma competência que viabilize o entendimento de que, um adulto sobrevive à frustração, diferenciando-o da experiência infantil que remete ao contrário. A partir daí, é possível observar o efeito relaxante no corpo que, diante das impossibilidades, de forma criativa, busca outros caminhos para satisfação. Essa energia que circula com mais leveza produz o equilíbrio necessário tanto para o corpo quanto para o dono do corpo.

Vivemos em uma sociedade que cultua de diversas maneiras um ideal de forma física distante da maioria das pessoas, como isso é trabalhado no atendimento com foco no emagrecimento?

LC - Esse é um forte paradigma social que precisa ser bravamente questionado. O ideal da forma física é ilusório, pois se distancia da idéia de diferença que envolve a existência humana. No atendimento com foco no emagrecimento, aprender a lidar com a frustração dinamiza a investigação subjetiva e, a partir daí, torna-se possível descolar de si, a interferência externa. Quando nos separamos do determinismo social, encontramos nossa própria referência, mais coerente com a nossa realidade interna. A liberdade de expressão passa a ser mais importante, exaltando e valorizando a diferença em detrimento da idealização do corpo perfeito.

Fonte: Portal Psico

 

 

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